03-09-2010 22:40

Abrindo o baú da Clarice

                            Carta 1

                                                             Réquiem para Clarice
Tristão de Athayde

               Quando, em 1944, uma jovem desconhecida, de 17 anos, levou à nossa editora Agir, pouco antes fundada, seu romance inédito, que as grandes editoras se recusavam a publicar, pedi-lhe para lê-lo. Lido, não hesitei. Tinha em meus ouvidos, pela voz interior do livro, e em meus olhos, pela leitura, uma presença diferente. Não apenas uma presença feminina, mas uma expressão humana inteiramente nova, entre os nossos melhores escritores.
               Era o modernismo remodernizado. Uma nova fase da Revolução de 1922, que dois anos mais tarde, em 1946, Guimarães Rosa ia genialmente confirmar. Era um risco editorial publicar um romance feminino, aparentemente esotérico, como iriam ser mais tarde os de Nélida Piñon, de uma jovem ucrano-brasílica, totalmente desconhecida. Corremos, porém, o risco calculado. O resultado confirmou nossa previsão. Foi um completo fracasso editorial esse Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector.
               Trinta e três anos se passaram. Nesse chuvoso e melancólico dezembro de 77, a menina dos 17 anos, depois de uma ascensão penosa, cada vez mais gloriosa, partiu para sempre, antecipadamente cercada por uma auréola, que superou toda efêmera glória literária. Pois conseguiu juntar a mais cristalina pureza estética, de uma longa obra de poesia em prosa, a uma vida tragicamente marcada por um sentido transcendental dos mais amargos sofrimentos. Marcada pela solidão. Marcada pela perda do grande amor de sua vida. Marcada pela luta constante contra a quase miséria material. Marcadas pelas mãos maceradas pelo fogo em defesa da vida de um filho. E pela sombra da insanidade rondando a vida do outro. Como se conjugaram em torno dessa cabeça genial, cujos erres ucranianos ainda ressoam aos meus ouvidos, todo um bando de pássaros negros. Contra essa conjuração do destino, aparentemente, irremediável só havia uma defesa, a confissão literária, no mais puro sentido da palavra. A expressão totalmente oposta ao sentido pejorativo daquele estranho desabafo verlaineano, tout le reste est littérature. Se houve jamais em nossas letras um protesto formal contra esse conceito residual de literatura e uma afirmação de que toda arte verdadeira, longe de ser o que sobra é o que fica da realidade, esse documento poderá ser a obra de Clarice Lispector. Como foi a de Cruz e Souza. Os malditos da sorte, quando nascidos com a pinta do gênio, é pelo poder de sua criação estética que sobrevivem a todas as ondas da desmemoria.
               Clarice foi, evidentemente, uma escritora para os happy few, mas será provavelmente, como veio sendo ao longo de seus sucessivos contos e romances (de um subconsciente superlativamente dotado de uma revelação gradativa dos entretons mais sutis do nosso pensamento e de nossas imagens), até mesmo para a happyless croud. Pois é nessa rara composição de extremos, que sua obra definidamente singular se aproxima paradoxalmente desse outro gênio que, dois anos depois de sua estréia, iria marcar também uma fase nova de nossas letras modernas. Refiro-me à fraternidade estética entre esses dois grandes solitários e renovadores estilísticos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Entre outros aspectos de seus estilos, aparentemente esotéricos, possuem em comum esse conjunto paradoxal de um elitismo particularista de expressão e de temáticas opostas, inserido em uma matéria essencialmente universal e mística. Guimarães Rosa como voz telúrica do Brasil sertanejo e vegetativo, expresso pelo mais requintado dos manejadores de uma linguagem recriada em língua, segundo a distinção de Sausurre, tão bem formulada e aplicada em um admirável artigo de Gerardo Mello Mourão. Clarice Lispector por sua vez, ao lado e em face de Guimarães Rosa nessa década renovadora de 40, como voz oceânica do Brasil praieiro, voltado para “o mundo, vasto mundo”, inclusive o eslavo, expressa nos dois teclados coexistentes do subconsciente e do supraconsciente. Tanto uma obra como outra profundamente unidas pelo laço desse subconsciente, que liga todos os homens de todas as nacionalidades, de todas as religiões, de todas as raças (antes do pensamento lógico e muito antes do pensamento gráfico), assim como por esse supraconsciente da presença invisível de Deus, que não se expressa pela invocação de seu Nome, mas naquilo que é o sinal mais seguro de sua realidade transcendente e imanente, o silêncio.
               Toda a obra de Clarice Lispector é fruto desse conúbio constante do pré-lógico com o metalógico. O que está por baixo e antes da consciência, com o que está depois e acima dela. Seu estilo foi e continuará a ser a expressão pura de sua pessoa. Sem ter a mínima intenção de fazer surrealismo, de criar uma nova forma ou mesmo escola literária como fez André Breton. Clarice foi surrealista e supra-realista sem querer.
               No sentido total de uma expressão literária, que liga o que está antes da voz e da palavra expressa, isto é, no fluxo do monólogo interior pré-verbal, com a presença superior do deus invisível, sempre presença na vida como na obra dessa alma trágica de mulher, que representou tão bem em nossa vida intelectual, essa realidade perturbadora do Eterno Feminino goetheano. Fusão absolutamente espontânea, que não pode ser logicamente expressa, por viver em nossa sombra interior, antes mesmo de ser eliminada pelo mistério da graça divina. Essa fusão espontânea de luz e de treva será, porventura, o segredo dessa mulher fatídica e do tipo profético de sua genealogia judaica.
               No seu último livro, em dedicatória escrita um mês antes de morrer e que recebi, no próprio escritório de seu último editor, José Olympio, essa mulher atormentada terminava suas palavras de afeto, ao seu primeiro editor, com essa sentença literal que tudo explica: “Eu sei que Deus existe.” Sua trágica solidão teve também um Companheiro.

Carta 2

                                                     A obra de Clarice para crianças
   Laura Sandroni

              Uma das maiores escritoras brasileiras contemporâneas, Clarice Lispector criou quatro histórias dedicadas ao público infantil; O mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura e Quase de verdade.
              Em todas elas os personagens principais são animais de variadas espécies, e o tema, suas relações com os seres humanos – principalmente com ela, Clarice, que tinha por eles um carinho extraordinário. Em nenhum momento ela pretendeu ensinar algo sobre a vida animal ou pregar a respeito da importância de cada um deles na grande cadeia ecológica do universo. Em cada linha o que transparece é seu enorme respeito pela natureza e o prazer que sentia ao se relacionar com todos os seres vivos. 
              Em O mistério do coelho pensante, seu primeiro titulo, lançado em 1967, ela confessa que escreveu a pedido de seus filhos, que adoravam “conversar sobre coelhos muito bom”. A intenção da autora em sua divertida narrativa é despertar na criança o gosto pela reflexão sobre os mistérios da vida. Na introdução, ela explica que a história só termina realmente “quando a criança descobre outros mistérios”. Uma narrativa simples, em linguagem coloquial, cheia de recados, própria de uma autora pensante e misteriosa.
              Em A mulher que matou os peixes (1969), não há propriamente um enredo. A narrativa se constrói sobre momentos da vida da escritora, sempre relacionados aos bichos que possui, aí incluídos aqueles que simplesmente passaram por sua casa – como ratos e baratas. A forma adotada é a da confissão. Logo de início a narradora/autora diz: “Essa mulher que matou os peixes, infelizmente, sou eu. Mas juro que foi sem querer.” A intimidade entre a escritora e o leitor se cria a partir daí e aumenta ao longo do texto, pois Clarice sabe, como poucos, dialogar com seu público, a exemplo de Machado de Assis.
              A vida íntima de Laura (1974) trata de uma galinha, que “apesar de bastante burra”, tem seus “pensamentozinhos e sentimentozinhos”.  Neste livro Clarice adota o tom coloquial de quem conta uma história para alguém muito especial e obtém com isso raro grau de intimidade que faz a delícia do ouvinte leitor. Ela põe em jogo toda sua arte de contadora de histórias e convoca o ouvinte a participar: “Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que acerte! Dê três palpites. Viu como é difícil?”
              Surpresa gostosa este Quase de verdade (1978)no qual o cachorro Ulisses é o narrador e Clarice a ouvinte. Nele, a autora reencontra sua infância e faz de um enredo simples um jogo em que texto e contexto se misturam na mesma alegria lúdica de comunicar-se com a sensibilidade mágica da criança.
Clarice Lispector ainda publicou uma versão de doze lendas brasileiras, a que intitulou Como nasceram as estrelas (1987) e relacionou cada uma aos meses do ano. Seu estilo coloquial de narrativa aproxima a poesia do olhar indígena, da criança de hoje.

Carta 3

                                                                          Ler Clarice é...
Teresa Montero

                         Ler Clarice é viver em permanente estado de paixão.                               
              Ler Clarice exige uma mudança de postura do leitor no modo pelo qual ele se aproxima do texto. É que o texto de Clarice pede uma escuta atenta, uma entrega de quem o lê. Clarice fala de coisas presentes no nosso dia-a-dia, o modo pelo qual reagimos aos acontecimentos mais banais, como andar na rua, olhar-se ao espelho ou conversar com um amigo. Ela nos mostra, também, outras coisas vivenciadas interiormente, aqueles momentos sem palavras dos quais só o nosso coração testemunha. Clarice escreve textos como quem vai desvelando a realidade, sondando os gestos, os olhares; tudo tão sutilmente que quando o leitor se dá conta vê-se diante de um instante mágico, especial, ao reconhecer a sua vida, a si mesmo, através daquelas palavras.

              Ler Clarice é uma oportunidade de mudar o seu olhar diante do universo. É estar disponível para se aventurar no seu interior de forma irracional, sem censuras. Deixar-se levar pela imaginação, pela intuição e usá-las como forma de conhecimento.

              Ao publicar A paixão segundo G.H., Clarice escreveu uma pequena nota introdutória onde pedia que este livro só fosse lido por pessoas de alma já formada. Isso mostra até que ponto pode-se absorver o que o seu texto diz. Ao ler Clarice deve-se estar disposto a aceitar o não entendimento de determinados processos da vida. Clarice dizia: “Suponho que entender não seja uma questão de inteligência, mas uma questão de sentir, de entrar em contato.” Isso faz parte do caminho aberto pelo seu texto. Cada leitor contém a sua bagagem particular de experiências, sensações, acionadas no momento da leitura; Clarice sabe disso e valoriza estas particularidades. Seu texto é um convite permanente ao "viver ultrapassa todo o entendimento" (palavras de Clarice).

              Clarice escreveu crônicas, contos, romances, livros infantis, reportagens, páginas femininas, uma peça teatral, enfim, exercitou-se em diferentes registros de textos, mas imprimiu sua marca em todos eles: o texto interroga, faz o natural parecer sobrenatural, imprime um sentido ainda desconhecido por nós.

              Viver essa experiência de ser leitor de Clarice é uma aventura no que ela tem de imprevisível, surpreendente, perigoso, ao mesmo tempo é um presente porque quando se está lendo Clarice você se sente especial dentro deste universo criado por ela. Especial porque você consegue se reconhecer como um ser humano cheio de limitações, sujeito às adversidades da vida, ao fracasso, às crises, mas também capaz de trilhar um caminho repleto de descobertas, de sustos, de grandes alegrias, de momentos de êxtase, vertigens, delírios.

              Ler Clarice é a possibilidade de viver intensamente o que se é. 

Carta 4

 O eterno direito ao grito
Adriana Lunardi

              Tenho para mim que a primeira palavra ouvida na Terra foi não. Um não feroz, que tinha basta por significado. Esse não, engasgado há milênios, exigiu de incontáveis gerações o aperfeiçomento das cordas vocais até fazê-lo soar. A discordância, viva até hoje, dizia respeito à descoberta da finitude de cada um e de todos. Mais que bichos, menos que deuses, somos criaturas do tempo. E foi essa infeliz particularidade biológica que nos obrigou a evoluir até o não.

              O direito ao grito é, exatamente, um dos 13 títulos da última obra de Clarice Lispector que, na forma definitiva, chamou-se A hora da estrela. Os mesmos trinta anos do desaparecimento de Clarice, lembrados hoje, são também o aniversário de sua personagem mais popular, bela como mandacaru, aparecida no ano da morte da autora.

              Nada soa estranho nessa biografia.

              Clarice morreu às vésperas: iria comemorar 57 anos (ou 59, 60? – nunca se saberá ao certo a data de seu nascimento) no dia seguinte. Diante de uma perda maior, tudo se recolhe a seu significado transitório, temporariamente válido, efêmero. Porém, quando morre um poeta (um autor, um artista), a dor é tribal. O luto dos íntimos se abate também sobre uma comunidade maior que, em resposta, inscreve certos nomes na pedra.

              Estudos dizem que o passo que nos elevou de símio a sapiens ocorreu durante a marcha de um funeral. Nenhum outro ser vivo enterra seus mortos. Na origem, o gesto, sem função prática, acabou por caracterizar o melhor de nós: a capacidade de abstração – de onde nasce a arte, outra coisa sem aplicativo claro. A gratuidade dos atos, pois, é que nos proporciona um destino diferente daquele planejado para nossa espécie. Somos mortais, sim, mas em troca inventamos a imortalidade. A hora, pois, também pode ser a do surgimento de uma estrela.

              A consagração de Clarice Lispector deu-se desde o primeiro momento. Ao publicar seus livros, a autora abreviou a chegada da maturidade à literatura brasileira. Em menos de um século, nosso português verde-amarelo tinha finalmente como se justificar. Com Guimarães Rosa, seu par em importância, consolidou um cânon a que faltava até massa crítica para ser formado. No entanto, Clarice dizia escrever de ouvido, negando, a um só tempo, o posto intelectual que tentavam lhe arranjar, e a erudição como ferramenta do escritor. Um pouco mais atrás, um pouco antes, um pouco abaixo. É dos lugares inexatos que parece brotar a prosa clariciana. Áreas para as quais o pensamento não havia ainda sido orientado. Seu texto, pode-se dizer, possui uma dicção tal que ao idioma restava apenas colaborar, flexibilizando a gramática, despojando-se dos punhos castiços, para que dele se desprendesse o espírito ancestral, a razão primeira pela qual existe uma língua.

              Cada leitor tem com Clarice Lispector seu próprio encontro, individual, secreto, íntimo.  Suas páginas nunca passam ilesas ao sublinhado de um lápis para lembrar a consonância de idéias com o autor. Um caso de ressonância poucas vezes repetido na História da Literatura.

              Em toda a sua obra, há um encorajamento em direção às pequenas e grandes verdades, ao ato de vasculhar o material menos brilhante de que somos feitos. Através da nordestina errante, subnutrida e mentalmente rebaixada de A hora da estrela, a condição humana é exposta em uma secura primitiva, tão desprovida que parece almejar a volta ao pré-civilizado, ao menos que humano, à simplicidade vegetal. Corpo ou mente, tudo falha na personagem: que história dar a um ser sem texturas? E, no entanto, o livro termina e começa com um sim, única resposta necessária para tudo ser possível. 

              Depois de Clarice Lispector, passamos a exigir mais da literatura e mais de nós mesmos.  A exemplo de Macabéa, sentimos na pele o destino de instáveis criaturas vivendo às custas de um narrador que, não sabendo o que fazer, atropela-nos e foge. Na calçada, porém, junto ao sangue ainda quente, uma vela é acesa, uma linha continua a ser escrita. São os atos gratuitos, esses que nos salvam a humanidade.
Adriana Lunardi

Carta 5

Clarice no deserto
José Castello
            Descender de Clarice, será isso possível? Foi Harold Bloom quem melhor tratou da angústia causada pela influência literária, que de resto é sempre dolorosa, mas irremediável. Mas que pode, também, se tornar muito produtiva. Escritores “sofrem” uns dos outros, mas essa contaminação, se enfrentada com firmeza, pode servir de suporte (e não de obstáculo) à liberdade interior. Abrir caminho para a invenção de si.
            Quanto maior é um escritor, porém, mais numerosos se tornam seus imitadores, isto é, aqueles que não conseguem ultrapassar o lodaçal das influências. É o caso de Clarice, uma escritora inconfundível, uma grande solitária mesmo entre os seus mais célebres contemporâneos. “Eu a leio não para pensar em livros, mas para pensar em mim”, disse certa vez o insuspeito Guimarães Rosa.
            Até A paixão segundo G.H., romance de 1964, talvez ainda se possa pensar em uma Clarice capaz de gerar descendentes. Penso, em particular, em seus magníficos contos que, apesar da grandeza, ainda se atêm a certos princípios gerais do literário. Mas, e depois? 
            Seus quatro grandes romances – G.H., Água viva, A hora da estrela e Um sopro de vida _ sequer chegam a ser romances. Ciente do abismo em que se meteu, Clarice usou a expressão “literatura abstrata” quando falou, um dia, de Água viva. E definiu Um sopro de vida, seu romance póstumo, não como um “romance”, mas como simples “pulsações”.
            Com A paixão segundo G. H., Clarice resolve enfrentar o abismo que se estende para além da literatura e da própria linguagem. Desejo que se expressa, sobretudo, no momento em que G. H., sua personagem, decide provar a borra branca que escorre do interior de uma barata morta, prensada contra a porta do armário de seu quarto de empregada.
            A partir de G. H. , Clarice se torna obstinada na busca da Coisa – aquilo que está além de toda a linguagem e que se define por ser impenetrável pela linguagem. Em Água viva, a Coisa ganha passa a ser o “It”, o instante absoluto, livre do passado e também do futuro, que igualmente não se pode atingir, pois mal é nomeado, já não é mais. “It”, o neutro em inglês, nem “he”, nem “she”, mas “it”. E também o “it”, aquilo que, nos anos de juventude de Clarice, se dizia de certas mulheres sedutoras. Ainda hoje o dicionário define: “magnetismo pessoal, encanto”. 
            Com A hora da estrela, um livro que os leitores apressados (e iludidos pela armadilha que Clarice lhes arma) chamam de “realista”, ela, na verdade, debocha daquilo que dela sempre se disse_ que seria uma escritora enigmática e intimista, fechada em si mesma e incapaz de voltar-se para o real. Com sua Macabea, Clarice se lança sobre a vida. 
           Mas, para fazer isso, cria um segundo escritor, Rodrigo S. M., que funciona como seu representante, ou intermediário. O esforço “realista” de Rodrigo para enquadrar e “possuir” a frágil Macabea sustenta (e também faz fracassar) a narrativa de A hora da estrela. Rodrigo, mais que Macabea, é a estrela oculta do romance.
            Em Um sopro de vida, Clarice leva sua personagem, a pintora Ângela Pralini, a dialogar com seu “Autor”, assim denominado – outro intermediário que Clarice inventa para ao mesmo tempo representá-la e distanciá-la de seu livro. O “Autor” diz por ela: “Ângela Pralini não é um personagem, é a evolução de um sentimento”. É um modo de dizer que ela, Clarice, está “fora” da literatura; que está “além” dela. Busca outra coisa com a escrita, busca  abismos que se encontram além e fora da própria escrita. “Eu sou o atrás do pensamento”, Ângela se define.
            Clarice Lispector promove, com seus quatro maiores livros, uma crítica devastadora da literatura modernista. Ela escreve não só com suspeita, mas com grande desinteresse pelos cânones dominantes no meio literário. Clarice tinha uma enorme dificuldade pessoal para ser ver, e se apresentar, como escritora; via-se “fora” da literatura e de seu mundo social, com autores, lançamentos, editores, prêmios. A literatura era, para ela, uma questão muito mais forte que uma profissão e muito mais grave que uma vaidade. Era uma questão de vida ou morte. 
            Qualquer tentativa de descender dessa Clarice radical, que se coloca, e escreve, desde um lugar que escritor algum ousou pisar, corre o risco, sempre, de se converter em uma encenação deplorável. No máximo, uma imitação mais ou menos bem sucedida, e mais nada. É verdade, em alguns (raros) escritores podemos perceber os sopros de Clarice Lispector. Seu benfazejo vigor, ecos de sua coragem a moldar, a “descabelar” (como dizia Caio Fernando Abreu, um declarado discípulo) sua mente e sua escrita. 
            Um grande narrador como João Gilberto Noll é, inegavelmente, afetado pela leitura de Clarice - mas dificilmente, e só sob o risco de se errar muito, se pode dizer que ele chega a ser um descendente, ou um herdeiro. Poetas como a mineira Adélia Prado, a mato-grossense Lucinda Persona, e mesmo uma narrador-poeta como Hilda Hilst, foram, sem dúvida, eletrocutados pela escrita de Clarice. Passaram pelo choque de lê-la e atravessaram o abismo que ela abriu; o que é muito diferente de afirmar qualquer filiação.
            Pode-se pensar, mais, em angústia, como queria Bloom, do que em filiação, ou descendência. Mais em aflição, ou até em tormento causado pela leitura de Clarice, do que em hereditariedade, coisa que, em literatura, não existe mesmo. A leitura de Clarice é devassadora – e não é por outro motivo que muitos falam em bruxaria, ou possessão. É uma leitura que atormenta, porque pega o leitor ali onde ele se encontra mais frágil: em sua fé desamparada naquilo que lê. 
            Parece inevitável, embora seja um grande engano, pensar em narradores mais intimistas quando se fala da influência de Clarice. Será mesmo Clarice uma escritora intimista? Em A hora da estrela ela se desdobra em um “escritor”, Rodrigo S. M., para discutir sua posição, suas dúvidas, suas inquietações em relação à literatura. Mas isso é bem diferente de falar de si, ou de se confessar. O problema é que Clarice, para escrever, ela se colocava à borda de um abismo: desde esse extremo, ela divisa um mundo que se abre, diante dela, como um grande enigma.
            Não há intimismo nisso - há, muito mais, um sair de si. Ainda que ela se visse sempre (e essa é sua danação de escritora) presa a si e às próprias palavras. Seu estilo é arrebentar com a marca dos estilos; sua marca, se é que podemos falar de uma (como nas confecções e nos carimbos), está na explosão da própria marca. 
            Clarice escrevia para ultrapassar as fronteiras do literário; escrevia, como ela mesma dizia, “por necessidade atroz”, e não porque desejasse seguir uma carreira, ou se consagrar. Sendo assim, seus descendentes, se é que eles existem, deveriam ser escritores capazes de dar o mesmo salto no escuro. De se lançar no abismo da escrita, dispostos não a fazer isso ou aquilo, não a cumprir tarefas, ou a seguir roteiros de consagração, ou mesmo a imitá-la. Mas, ao contrário, a se desprender de si mesmos e se libertar do que são.
            Muito difícil fixar descendências. Impossível mesmo. Tudo o que nos resta, diante de Clarice, é ceder à claridade que dela emana, luz intensa que nos cega como a escuridão. Ela borra todas as comparações e todas as filiações. Deixa-nos completamente solitários. 
            Clarice é uma escritora que nos leva para o deserto. Como o filósofo Jean-Jacques Rousseau em suas célebres Meditações de um caminhante solitário, ela poderia dizer: “Eis-me aqui pois, sozinho na terra, sem nenhum irmão, companheiro, amigo ou companhia além de eu mesmo”. E ainda, imitando Rousseau, se perguntar: “Mas eu, desligado de todos eles, quem sou eu?” Clarice Lispector, quem sabe, é só um personagem criado por Clarice Lispector. Uma hipótese assustadora, que exacerba mais ainda sua solidão.

Carta 6

A política em Clarice Lispector
   Silviano Santiago
              Em torno de Clarice Lispector circulam duas imagens contraditórias. A primeira é divulgada por uma foto. Ladeada pelo pintor Carlos Scliar e o arquiteto Oscar Niemeyer, ambos conhecidos membros do Partido Comunista, Clarice participa em 1968 de uma passeata contra a ditadura militar. A outra nos chega através de um depoimento de Olga Borelli, que está no esboço para um quase retrato escrito pela amiga e confidente. Clarice, observa ela, “dizia que os problemas da justiça social despertavam nela um sentimento tão básico, tão essencial que não conseguia escrever sobre eles. Era algo óbvio. Não havia o que dizer. Bastava fazer...”
            A ativista da passeata não se confunde politicamente com o texto na vitrina da livraria (a exceção - e esta confirma a regra - é o romance A hora da estrela, logo depois transformado em filme mais participante ainda). Se o ser humano arrisca a própria vida na rua, lutando contra a repressão militar, o texto ficcional é julgado pelos contemporâneos como “apolítico”. Numa literatura como a brasileira, escrita por zelosos (vale dizer: medrosos) funcionários públicos, como nos lembrou Carlos Drummond em crônica admirável, e concebida dentro dos padrões oitocentistas do realismo-naturalismo, o oposto é que é verdadeiro. O texto é sempre mais “revolucionário” do que o escritor. Este é conformista para que aquele possa ser radical.
            Desde a Carta de Pero Vaz de Caminha até o mais recente Paulo Lins, a nossa literatura é mais elogiada quando se nutre deliberada e gulosamente de acontecimentos político-sociais da história do país. Qualquer truque retórico que vise a “mascarar” essa realidade é sempre visto pelos leitores vigilantes como um crime cometido pela arte. O gosto do leitor brasileiro é ratificado pelo do leitor estrangeiro da nossa literatura. Também ele está mais interessado em livros traduzidos que mantenham viva a chama do “exotismo” (a palavra não é descabida se ele for europeu). O estrangeiro exige a luxúria ou a miséria brasileiras -- tanto faz uma como a outra, desde que confluam para a história do Brasil. Nesse sentido, Clarice é de novo uma exceção. Há alguns anos, seus livros são bem pouco tropicalientes e, no entanto, são muito consumidos mundo afora.
            Em torno de Clarice circula outro par de imagens contraditórias. A primeira é a de uma criança judia que chega com a família imigrante ao nordeste do Brasil e, pouco a pouco, galga posição de destaque na sociedade carioca, na sociedade tradicional brasileira. Casa-se com um diplomata de carreira, gói. A segunda imagem, sugerida pela própria Clarice, é a de uma jovem e talentosa artista que se cerca de intelectuais confessadamente católicos, como Lúcio Cardoso, ou discretamente católicos, como Fernando Sabino, despertando num outro católico, Antônio Callado, a idéia de que tinha morrido cristã. Isso está em depoimento do escritor fluminense feito por ocasião do enterro do corpo de Clarice em cemitério judeu.
            Esses dois pares de imagens, essas quatro imagens contraditórias talvez encontrem uma primeira chave de leitura nas grandes polêmicas que começaram a sacudir, pouco antes da Primeira Grande Guerra, o mundo judaico na Alemanha. Trata-se de uma coincidência? Coincidência, ou não, tomemos a questão como hipótese de trabalho e continuemos a crônica pelo lado religioso.
            No início deste século, em reação ao anti-semitismo e ao espírito antiliberal que começa a grassar na alta burguesia alemã, os intelectuais judeus colocam uma questão candente: como continuar administrando a propriedade espiritual de uma nação, no caso a germânica, que estava negando aos judeus o direito e a habilidade para o fazer? Surgem três posturas básicas. Uma, de inspiração burguesa e tradicionalista, minimiza os recentes fatos que acentuam o anti-semitismo. O judeu deve prosseguir silenciosamente seu caminho de liderança espiritual, integrando-se mais e mais ao Estado alemão. A segunda, sionista, questiona a infindável errância do povo judeu e luta resolutamente pela criação imediata de um Estado nacional judeu, no caso Jerusalém. Defendida por jovens e rebeldes intelectuais como Ernst Bloch e Walter Benjamin, a terceira postura vai ser a responsável por “uma nova sensibilidade judia”, para usar as palavras do historiador e nosso guia Anson Rabinbach. Trata-se do aprimoramento duma sensibilidade radical, secular e messiânica, que entraria em evidente conflito com as duas primeiras posturas.
            Em que a descrição rápida dessas três posturas pode nos ajudar a compreender certa coerência política na personalidade multifacetada de Clarice Lispector?
            Vivendo num país de chocantes e incontornáveis problemas sociais, Clarice se sustenta em valores espirituais fortes e universalizantes. Vendo que o país de adoção acolhe simpaticamente os refugiados judeus que por aqui arribam, acaba por não ter de enfrentar no cotidiano o preconceito religioso. Clarice minimiza o poder do judaísmo na sua formação intelectual, ao mesmo tempo que se amolda suave e gradativamente aos contornos impostos pela outra pátria cristã. Em várias e repetidas vezes, confessa-se brasileira e diz pensar e sentir em português. Contraditoriamente, mais a imigrante judia se adapta sem rebeldia à nova moldura nacional, mais indignada e pessimista fica quanto ao mundo tal como ele se lhe apresenta.
            O mergulho na especificidade brasileira é motivo para a crescente indignação contra a miséria em que vive nosso povo, seja ele o pobre nordestino seja ele o marginal assassinado pela polícia, como é o caso paradigmático do bandido Mineirinho (cf. A legião estrangeira). Se essa indignação, alimentada pela fome de justiça social, não robustece a reflexão e o fazer propriamente artísticos, aguça a necessidade de o artista entrar na luta coletiva contra o estado das coisas. “Quero entrar em guerra com o mundo”, anuncia o Apocalipse. A indignação participante, antes de ser matéria de arte ou de atitude política individual, torna-se matéria de sobrevivência, numa comunidade tutelada pelos militares.
            O ativismo coletivo de Clarice (passeatas, reuniões semiclandestinas etc.) robustece a arte pelo avesso, liberando-a do compromisso que a literatura brasileira tradicional mantém com o acontecimento sócio-histórico. “Não pertencia a nenhum grupo e nenhum grupo a convidou para fazer parte dele”, escreve a amiga Olga Borelli. Na ficção de Clarice, apaga-se o relato das injustiças cometidas no Brasil e no mundo, para que sobressaia transbordante e feliz a utopia futura pelo seu viés presente e cotidiano. “Não pensar pessimisticamente no futuro”, anota a escritora. Os momentos privilegiados da vida humana, descritos até a exaustão pela escrita de Clarice, prefiguram de maneira mágica e involuntária, religiosa, uma esperança que só poderá concretizar-se com a destruição da velha e atual ordem mundial.
            Na literatura brasileira, Clarice é a primeira a transferir para a linguagem o lugar central ocupado autoritariamente pela realidade histórica. “Minha ação é a das palavras”, anota. Só pela linguagem e através dela é que o indivíduo pode escapar de outra miséria, a da política nacional e internacional, a fim de que possa realçar no texto momentos privilegiados do dia-a-dia que utopicamente desenham o futuro promissor da raça humana. No sentido estreitíssimo da expressão, a prosa de Clarice pode ser dada como antipolítica. Se para o leitor comum a linguagem ficcional de Clarice é áspera e esotérica, ela o é porque dirigida contra a linguagem fácil do instrumentalismo político.
            Nova e última contradição. Se a Clarice ativista é pessimista e apocalíptica, já o seu texto é otimista e utópico. “Tudo é passível de aperfeiçoamento...”, lê-se no conto “Amor”. Apenas aparentemente é que o texto de Clarice é antipolítico. Ele é altamente politizado na medida em que, como na filosofia de Ernst Bloch, opõe à imanência histórica a salvação.
            Por isso, a grande contribuição de Clarice à literatura brasileira (e ao desenvolvimento do conhecimento filosófico no Brasil) é a de ter questionado o conceito de “experiência”, tal qual defendido por Kant e os neokantianos. Ao demarcar o território da experiência pela redução do real ao racional, e vice-versa, Kant configurou e nos transmitiu um conceito tacanho, cego à religião e ao irracional. A conceituação de Kant criou um vazio que só poderia ser redimido por um conceito mais alto e mais amplo de experiência. Nesse sentido, esclarecedora para se compreender a originalidade da proposta filosófica de Clarice é a leitura do ensaio do jovem Walter Benjamin, intitulado “Programa para a Filosofia futura” (1918). Nele o filósofo aponta para a necessidade de conceber a experiência como algo que também incorpora o pré-racional, o mágico e até mesmo a loucura.
            Esse enriquecimento do conceito de experiência propiciou uma nefasta atitude conservadora por parte da crítica marxista ortodoxa no Brasil. Ela foi incapaz de compreender a política revolucionária do texto de Clarice, presa que se encontrava aos condicionamentos históricos impostos pelas verdades iluministas no nosso pensamento político.

Carta 7


Sites de outros grupos:

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 (Vinícius)

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(Eddy)


Questionário

Qual dessas alternativas mais se reflete ao livro laços de familia de Clarice Lispector?

Um livro narrativo com varias emoções em decorrer de suas historias . (106)
80%

Um livro q situa-se confluência de paradigmas, a cena de realismo, naturalismo e a do romantismo. (26)
20%

Total de votos: 132


A levitação de Clarice
Affonso Romano de Sant’Anna

            Um dia Clarice liga dizendo que aceitou dar um depoimento no Museu da Imagem e do Som, mas fazia questão que Marina e eu fôssemos os entrevistadores.

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